segunda-feira, janeiro 30, 2006

Belle & Sebastian - The Life Pursuit

Definitivamente, aquele Belle & Sebastian famoso por canções delicadas e fofinhas, repletas de cordas e sopros, com arranjos melancólicos, está morto e enterrado. O que parecia ser apenas um esboço de um novo caminho a ser trilhado, mostrado no irregular "Dear Catastrophe Waitress", de 2003, tornou-se o novo estilo, de fato, da banda escocesa. O primeiro single, "Funny Little Frog", é um belo exemplo do que vem a ser esse novo som: o piano ainda marca o ritmo, mas as guitarras estão agora em primeiro plano; o andamento está mais rápido, um naipe de metais aparece de maneira discreta; o vocalista Stuart Murdoch assumiu de vez o posto de frontman da banda, deixando de lado o jeito tímido e arriscando até uns falsetes. Os vocais de apoio, feitos por Steve Jackson e Sarah Martin, estão em evidência em todas as canções, dando a elas um clima quase que psicodélico. Steve canta a bela "To Be Myself Completely" que, devido a um arranjo de cordas dos mais simples, faz lembrar os tempos em que Isobel Campbell transformava em octeto o que hoje é um septeto. Mas não se engane: a saída da moça encerrou um capítulo na história do Belle & Sebastian. Poucas vezes se viu uma transformação tão grande no som de uma banda. Transformação essa que não se limitou apenas ao campo musical. Nos tempos de Isobel, os escoceses faziam clipes de maneira artesanal, com um amigo filmando tudo com uma câmera caseira. Hoje os videos promocionais são bem feitos, com roteiro e atuações. A banda que antes não lançava singles e sim EPs com canções inéditas, hoje rendeu-se ao apelo das grandes gravadoras e faz tudo o que as outras bandas fazem, inclusive lançar DVD-singles. Com essa nova postura, o Belle & Sebastian conquistará um público novo e também mais atenção da mídia - a canção "If She Wants Me", do álbum anterior, chegou a tocar em um episódio da série The O.C. Os fãs mais antigos, da época em que a banda se recusava a dar entrevistas, talvez fiquem chocados e achem a audição deste "The Life Pursuit" muito difícil. Mas, se eles ignorarem os discos anteriores e se concentrarem apenas nesta nova fase, irão perceber como o novo trabalho do Belle & Sebastian é bom. Seria este um sinal dos tempos?

terça-feira, janeiro 03, 2006

The Magic Numbers

O primeiro álbum da banda americana The Magic Numbers vem com um som retrô, mas não no estilo anos 80, como é costume hoje em dia. As referências são dos anos 60, do folk-rock de gente como Bob Dylan, Creedence Clearwater e - como todas as publicações especializadas fazem questão de apontar - The Mamas & The Papas. As comparações com os autores do clássico "California Dreamin'" ocorrem mais por causa do peso dos vocalistas do que por semelhanças sonoras. Os gordinhos Romeo e Michele, que são irmãos, fazem um belo dueto na faixa "I See You, You See Me". De resto, o rapaz assume os vocais enquanto que sua irmã e a tecladista Angela fazem uns vocais de apoio que, de fato, lembram o supra-citado The Mamas & The Papas. As melodias são belíssimas, grudam no ouvido na primeira audição, com destaque para "Forever Lost" e "Love Me Like You". Os instrumentais são muito bons; o baixo de Michele fica evidente em muitas das canções, e o seu estilo faz lembrar, por alto, o de Peter Hook, do New Order. Nesta onda de releituras das décadas passadas, implementada pelo The Strokes e seguida por Interpol, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, dentre outros, fica difícil saber quando a fonte irá esgotar e quantas dessa bandas continuarão suas trajetórias. O The Magic Numbers, apesar do som sem novidades, é competente e está na lista dos possíveis nomes que ainda estarão na estrada daqui há dez anos. Não se pode dizer o mesmo de Bloc Party, The Bravery, The Killers... Mas isso é outro assunto.

sábado, dezembro 17, 2005

Isobel Campbell and Mark Lanegan - Ballad Of The Broken Seas

A cantora e compositora escocesa Isobel Campbell, ex-integrante do Belle & Sebastian, prometeu em seu site oficial dois discos para 2006. O primeiro deles sairá em janeiro e já está disponível em pré-venda, que é este Ballad Of The Broken Seas, gravado em parceria com Mark Lanegan, vocalista da extinta banda grunge Screaming Trees. Ao contrário de "Amorino", seu disco anterior, Isobel faz neste aqui um som mais simples, com poucos instrumentos e cordas sombrias. A voz extremamente grave de Lanegan, que tem um timbre que faz lembrar alguém mais velho, contrasta com a suavidade e com o timbre infantil da voz de Isobel. Mas, incrivelmente, essas duas vozes se combinam perfeitamente. Lanegan canta como um antigo cantor de folk, com muita sensibilidade, lembrando um Johnny Cash ébrio. Este álbum, de um modo geral, é bem melancólico, como é característico de Isobel, mas está um pouco mais pop e em alguns lembra Van Morrison e Nick Drake. O single "Ramblin' Man" é uma canção quase alegre com direito a guitarra e assobios; "The Circus Is Leaving Town" parece ter saído de um disco qualquer de Bob Dylan. Realmente, este é um disco excelente, misturando tudo o que a cantora escocesa fez anteriormente, com o Belle & Sebastian, com o The Gentle Waves e, também, com o pianista de jazz Bill Wells (no caso, o EP "Ghost Of Yesterday", onde os dois regravaram canções de Billie Holliday). Resta saber se o próximo lançamento da moça, "Over The Wheat And The Barley", ainda sem data definida, seguirá esta mesma linha.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Otto - Sem Gravidade

O cantor e compositor pernambucano faz nesse seu quarto trabalho um som absolutamente brasileiro, com toques de rock e música eletrônica. Percussões preciosas e barulhinhos permeiam toda o disco, deixando-o ainda mais rico. As letras não são lá essas coisas, mas os belos arranjos e melodias diminuem um pouco desse defeito do trabalho. A mulher do cantor, Alessandra Negrini, canta a faixa "História de Fogo". Todos sabem que o amor é lindo, mas tudo tem um limite. E, no caso do Otto, o limite é colocar a moça pra cantar no seu disco só porque os dois são casados. Ela canta mal pra burro, a sua participação não faz o menor sentido. Mesmo assim, o resultado final é satisfatório.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Joss Stone - Mind, Body And Soul

Se você não gosta de música negra, passe longe desse disco. A bela faixa de abertura, "Right To Be Wrong", talvez seja a melhor canção deste segundo trabalho da cantora inglesa. O que se segue são canções que remetem à Lauryn Hill, Mary J. Blige e outros expoentes femininos do chamado R & B. O reggae "Less Is More" aparece para atenuar um pouco da monotonia do álbum. Joss continua cantando extremamente bem; ela faz tudo direitinho. A sua respiração, um pouco mais forte nos momentos certos, deixa as suas interpretações ainda mais emotivas. O resultado final não é de todo ruim, apenas não foge do lugar comum. Atenção para a faixa não creditada, que vem logo após "Sleep Like A Child", onde Joss canta divinamente, acompanhada apenas de um piano.

domingo, novembro 13, 2005

Pitty - Anacrônico

Ouvindo este disco, você até que esquece um pouco da figura asquerosa e repulsiva que a cantora baiana é. O que faz com a audição fique livre de preconceitos e de outras coisas previamente estabelecidas. Mesmo assim, as impressões não mudam. O álbum, em si, é muito igual. Existem poucas variações, poucas mudanças de ritmo. Pitty escolheu não sair do lugar comum, provavelmente para não chocar o seu sensível público. As canções são até bem pesadas, mas sem riffs, solos ou qualquer outra coisa que faça o diferencial. O medo de arriscar, de fazer o novo, vagueia todo este trabalho. É claro que ela fez direitinho o dever de casa estabelecido pelo seu querido produtor, o não menos repulsivo Rafael Ramos. Estão aqui tudo o que fizeram a fama da moça: canções mais pesadas, canções nem tão pesadas, baladas rock, letras pessoais e com as quais todos podem se identificar (e que nem por isso deixam de ser horríveis). Tudo dentro da esfera do rock, em sua mais absoluta interpretação, é claro. A coitada continua cantando pessimamente. Era de se esperar que a experiência ao vivo fizesse com que ela melhorasse um pouco. Mas não, ainda estão aqui aquela absoluta falta de fôlego e aquela desafinação primária que, talvez, ela ache serem bacanas. Ela também acha que cantar rock com sentimento é berrar feito um ogro. O fato é que há coisa muito pior sendo feita por aí no rock brasileiro. Mas será só por causa disso que ela foi (e ainda é) apontada como "a salvação do rock nacional"? Por que será que a mídia não olha com um pouco mais de atenção para o que está sendo feito à margem da MTV? E percebe que a Pitty é uma bela porcaria, feita sob encomenda para os adolescentes fãs de Avril Lavigne e Evanescence?

domingo, novembro 06, 2005

Black Rebel Motorcycle Club - Take Them On, On Your Own

O BRMC sabe usar o que de melhor o Guns 'N' roses fazia (se é que havia alguma coisa boa nessa banda) para compor seu som, que também tem influências de Stone Roses e Oasis. O quarteto norte-americano foge da atual "fórmula fácil de sucesso" - o rock anos 80 - e faz um rock vigoroso, com guitarras distorcidas, bons riffs e efeitos nos vocais de Peter Hayes. Por vezes lembra uma banda de hard rock qualquer dos anos 70, por vezes parece um Velvet Revolver livre dos clichés. Mais uma banda que, se ficar atenta, tem tudo para se firmar no panteão do rock.